De onde surge a poesia

Ela chora no banho.
Ela nua e sentada no piso frio do boxe, recebendo a água nas costas e tossindo rejeições que não consegue suportar.
Seu corpo é um estertor, que recebe um frescor necessário e expele desespero.
Uma imagem.
Meu choro no dela escorre como uma hemorragia salgada, inestanque,
que não vai cessar pois que parece um pus que tem mesmo de ser eliminado.
Mas limpar a ferida da alma é tão difícil!
Como é fétido o pus do corpo, e o da alma, este não se sabe quando acaba e de que cor é.





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(...) A cama macia a espera. Deitar-se é tudo o que ela quer. Adormecer sem pensar, não ligar a luz da cabeceira, não abrir um livro, não tomar um copo d`água, não passar creme na perna. Ela se deposita de cabelos molhados sob a colcha de chenille e dois cobertores, com uma grande dor e o corpo trêmulo, não de frio, com as pernas meio bambas. Ela se encolhe, curvando-se em si mesma, os braços entrelaçados entre as pernas, enrijecem-se os bicos de seus seios, ela sente mais frio do que quando estavam fora da cama, seus poros todos se arrepiam. Mas logo sua temperatura e a da cama se igualam, ela se acalma, deixa as lágrimas secarem fazendo grudar a pele das pálpebras.



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Prelúdio e Fuga

A noite sobre a pele.
E o desejo.
Os mamilos lentamente duros, exigindo que deitasse de bruços.
Os pêlos contra o colchão exigindo que abrisse lentamente as pernas.
Na boca, porém, só sua própria língua, que não sabia penetrar.
Levantou-se em segredo.
Foi até a sala.
Descalça, fez amor com o piano de cauda.
Não era bom amante.
Desafinou várias vezes antes que ela alcançasse o orgasmo.
Mas tinha uma virtude principal: era muito romântico.



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